Entrevista


Entrevista/Rodolfo Geiser

Formado em engenharia agronômica pela ESALQ e com mais de meio século de experiência em paisagismo e atuação em grandes projetos, o engenheiro agrônomo paisagista Rodolfo Geiser é um dos pioneiros do ramo no Brasil. Nesta entrevista para o site da Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo, ele fala de sua carreira, revela fatos históricos sobre o paisagismo no país e toca em temas polêmicos como o PL 2043/2011, que pretende regulamentar a profissão de paisagista.

Como o senhor define paisagismo?
Em primeiro lugar, temos de nos entender sobre o uso do termo paisagismo. Quando penso nessa palavra, penso em dois campos básicos de trabalho, a escala macro, do km2 – quilometro quadrado, vinculada ao planejamento regional, e a escala micro, do m2 – metro quadrado, vinculada ao planejamento de parques e jardins. Enquanto a escala micro é superconhecida, a escala macro raramente é considerada entre os engenheiros agrônomos. A escala macro, do planejamento regional, considera elementos como as classes de uso do solo para uso agrícola, a hidrografia, o código florestal e as demais regras de manejo dos recursos naturais renováveis. Entre os produtos desse trabalho, temos a organização da paisagem rural e agrícola e o sistema de áreas verdes urbano, que englobariam tanto as recomendações para preservação e absorção das águas das chuvas quanto o sistema verde para recreação urbana. Assim, ambas as paisagens, rural e urbana, integram-se num único conjunto paisagístico.

Como avalia a situação do mercado de paisagismo para os engenheiros agrônomos?
Onde estão as oportunidades? Como se pode inferir pelas colocações já mencionadas, o campo de trabalho é incomensurável. Mas, excepcionalmente, se pensa na macroescala. Quanto à microescala, parques e jardins, dada a expansão urbana vertiginosa no Brasil, torna-se uma atividade muito procurada. Colega meu do Piauí, Francisco Lira, comenta que um agrônomo paisagista de lá não consegue atender a todas as suas solicitações. E acrescenta que nós não exploramos nem 10% desse campo. Certamente ele tem razão.

O ensino do paisagismo nos cursos de engenharia agronômica atende à demanda do mercado?
O ensino do paisagismo nas escolas de agronomia não atende aos requisitos do mercado nem no nível de 20%. Creio que os professores se isolam como numa torre de marfim, não conhecem as empresas do segmento, não visitam as firmas de agrônomos paisagistas para entender o que acontece e quais as necessidades do segmento. Conhecer esse campo deveria ser matéria de trabalhos de mestrado para agrônomos. E ainda nem comecei a falar na área da macropaisagem. Outro aspecto essencial é que haja aulas práticas de projeto de parques e jardins na prancheta. Que eu saiba, em nenhuma escola de agronomia existem aulas de projeto na prática. Há uns cinco anos, dei um curso extra de paisagismo na ESALQ, patrocinado pela FEALQ e liderado pelo professor Valdemar Demétrio, e mostrei projetos de nosso escritório. O professor Demétrio comentou, na ocasião, nunca ter visto nada semelhante na ESALQ. E desenhar na prancheta é um primeiro passo.

Como ingressou nessa área?
Foi meio que por acaso. Queria cursar agronomia e não tinha dinheiro para pagar a república. Em São Paulo, aos 17 anos, meu tio Curt me apresentou para trabalhar como ajudante numa firma de paisagismo, a Casa Flora, de Germano Zimber e Cia, superconceituada na época, e que tinha sede perto do Cemitério da Consolação e um viveiro de uns dez alqueires na Estrada de Cotia. Essa experiência me propiciou, enquanto estudante, base técnica para trabalhar como autônomo em Piracicaba executando jardins nas horas vagas. E continuei após formado. Na Casa Flora, conheci o Roberto Coelho Cardoso, que era professor de arquitetura paisagista na FAU/USP. Estagiei em seu escritório, tanto nas férias quanto após formado. Coelho Cardoso, como a experiência na Casa Flora, foi fundamental para meu trabalho profissional.

Qual a influência de Roberto Coelho Cardoso em sua carreira?
Além de organizar espaços, aprendi muito de horticultura com Coelho Cardoso, como poda, controle de crescimento de árvores e cultivo de forrações. Ele possuía também uma área em Cotia onde cultivava plantas ornamentais em condições de estresse. Em minha opinião, Roberto Coelho Cardoso é, no Brasil, tão ou mais importante para o paisagismo quanto Roberto Burle Marx. Paisagismo enquanto ‘organização de espaços verdes’. É o pai intelectual de arquitetos paisagistas como Rosa Kliass, Miranda Magnoli e Luciano Fiaschi, entre outros. Não obstante o seu nome, ele nasceu na África portuguesa e se graduou em arquitetura paisagística em Berkeley, na Califórnia (EUA), tendo sido aluno de um dos mais importantes paisagistas do mundo no século 20, Garret Eckbo. Veio para o Brasil e foi contratado pela FAU/USP. Enquanto era seu estagiário, contou-me que sua formação universitária foi de seis anos, sendo três anos de horticultura, um dos ramos da agronomia, e três anos de arquitetura. Ou seja, 50% de agronomia e 50% de arquitetura (organização de espaços).

E a proposta que ele fez para o ensino do paisagismo na ESALQ?
Como professor da FAU, ele desejava, com base em sua própria formação, fazer uma espécie de parceria com a ESALQ, para ensinar paisagismo nos mesmos moldes que em Berkeley (de sua época). Vejam a importância disso: ESALQ e FAU, ambas da USP. Para isso, indagou-me se eu podia apresentá-lo ao diretor de nossa escola, na época o professor Salim Simão, que era o catedrático de horticultura. Lógico que aceitei. Ele foi a Piracicaba me pegar na república Favela onde eu morava e fomos juntos falar com o Salim Simão (pessoa simpaticíssima e reconhecidamente bom ouvinte). Mas a ESALQ não aceitou a proposta. Coelho Cardoso comentou-me que lamentou profundamente a decisão da ESALQ.

Qual é a contribuição do engenheiro agrônomo para o paisagismo?
Como se conclui com base nas ideias de Coelho Cardoso, a importância do agrônomo em termos de formação universitária é no mínimo de 50%. Pessoalmente, tomei sua tese durante toda a minha vida profissional, elaborando projetos sempre em coautoria com um arquiteto. Desde 1996, estou associado com a arquiteta Christiane Ribeiro. Nosso escritório somente elabora projetos, consultas e especificações técnicas e não os executa. Paisagem no planejamento regional, urbano e rural é um campo a ser desbravado.

Qual a sua opinião sobre o PL 2043/2011, que regulamenta a profissão de paisagista?
Creio que o PL 2043/2011 não atende aos interesses dos agrônomos nem à amplitude e importância do paisagismo no Brasil. Penso que os engenheiros agrônomos que apoiam essa iniciativa, e são muitos, deveriam se associar às respectivas entidades de classe de agronomia de seu Estado, dando apoio às teses que venho expondo. Devemos permanecer unidos, esforçando-nos para formar um único grupo de paisagistas agrônomos. Paralelamente, temos de estar conscientes do desinteresse de nossas escolas em ensinar paisagismo “comme il faut” nesses últimos 50 anos e atuarmos junto a elas exigindo para que o façam. Ao desinteresse das escolas segue-se o desinteresse de nossas entidades de classe. Porém, nosso colega presidente da AEASP, Angelo Petto Neto, à frente da entidade, tem feito esforços para trazer à baila os temas que afetam as atribuições dos profissionais da agronomia. Penso que não devemos depreciar iniciativas como desse PL, uma vez que tem boa motivação, fruto de um desinteresse político de quem deveria agir e não o fez, impulsionado pelo interesse de diversas pessoas de atuar em paisagismo. O que pode ocorrer é termos arquitetos paisagistas, agrônomos paisagistas e paisagistas numa outra categoria profissional. Isso ocorre nos EUA: Landscape architect, Garden designer, Landscape designer, entre outros, como se observa nas revistas Landscape Architecture e Garden Design. Lembremos que, em Portugal, a arquitetura paisagística é ensinada em Escola de Agronomia, na Tapada da Ajuda em Lisboa (https://www.isa.ulisboa.pt/apresentacao/historia História | Instituto Superior de Agronomia www.isa.ulisboa.pt O Instituto Superior de Agronomia (ISA) tem as suas raízes remotas em 1852, com a criação do Instituto Agrícola e Escola Regional de Lisboa, no reinado de D ... ) História | Instituto Superior de Agronomia www.isa.ulisboa.pt O Instituto Superior de Agronomia (ISA) tem as suas raízes remotas em 1852, com a criação do Instituto Agrícola e Escola Regional de Lisboa, no reinado de D ...

Que conselho o senhor dá para o engenheiro agrônomo que queira ser bem-sucedido no mercado de paisagismo?
Inicialmente, penso que qualquer pessoa que se preocupa com reflexão e procura uma formação universitária não deve pensar somente na parte financeira. Uma carreira universitária, e, no caso, o ‘paisagismo, parques e jardins’, deve ser considerada também como uma espécie de apostolado. Entretanto, em relação à parte financeira, penso que os colegas iniciantes devem cogitar em trabalhar dentro do quadrilátero projeto, execução, manutenção e produção de mudas –, que é a razão do sucesso da grande maioria das empresas de paisagismo capitaneadas por engenheiros agrônomos. Com um pouco de esforço e boa vontade, o capital inicial é mínimo. De outro lado, a área que nosso escritório atua, exclusivamente a elaboração de projetos, requer muita experiência, que só pode ser adquirida por meio de empresas de projeto de engenharia e arquitetura. Experiência que será adquirida com trabalho em equipe com diversos profissionais das mais diversas formações e onde já exista um agrônomo ‘senior’ dedicado ao paisagismo que possa facilitar o entrosamento do iniciante