Cancro cítrico


Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro e de São José do Rio Preto, em colaboração com colegas da University of Groningen, da Holanda, identificaram uma série de compostos capazes de inibir a ação da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico – uma doença que ataca todas as variedades e espécies de citros de importância comercial.
Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP no âmbito de um acordo de cooperação com a Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO, na sigla em inglês), foram apresentados no “Biobased Economy Workshop”, realizado nos dias 5 e 6 de abril, na Fundação.
“Identificamos dezenas de compostos com potencial para combater a Xanthomonas citri”, disse Henrique Ferreira, professor do Departamento de Bioquímica e Microbiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro, durante palestra no evento.
O pesquisador – em parceria com Luís Octávio Regasini, professor do Departamento de Química e Ciências Ambientais do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Unesp de São José do Rio Preto – tem se dedicado a identificar nos últimos anos, por meio de projetos de pesquisa também apoiados pela FAPESP, compostos de baixo impacto ambiental que possam prevenir as plantas cítricas de serem infectadas pela Xanthomonas citri ou o espalhamento da doença para novas áreas.
As formulações bactericidas utilizadas hoje para prevenir a propagação da doença, que causa lesões em folhas, frutos e ramos, provocando sua queda, são à base de cobre – um elemento tóxico que se acumula no meio ambiente.
“Esses produtos podem levar à contaminação do solo e de reservatórios de água”, ressaltou Ferreira.
A fim de encontrar uma alternativa a essas formulações, eles começaram a prospectar compostos que sejam capazes de matar a Xanthomonas citri ao atacar processos vitais, como a divisão celular do microrganismo.
Nesse processo, as células bacterianas inicialmente crescem em razão da duplicação de seu material genético e, ao final, dividem-se em duas células filhas.
Uma etapa crucial desse processo é a montagem do septo divisional – uma estrutura composta principalmente por uma proteína chamada FtsZ, que forma um anel no meio das células quando elas estão prestes a se dividir –, explicou Ferreira.
“Escolhemos essa proteína essencial para o processo de divisão celular da Xanthomonas citri como alvo de compostos antibacterianos”, sublinhou.
Os pesquisadores fizeram então um levantamento de quais compostos são inibidores da FtsZ e notaram que, em comum, eles são polifenóis – substâncias naturais encontradas em plantas, como os flavonoides e os taninos.
A partir dessa observação, eles decidiram avaliar se o ácido gálico poderia ser ativo contra a Xanthomonas citri ou interferir no processo de divisão celular da bactéria.
Ácido orgânico também conhecido como ácido 3,4,5-triidroxibenzoico, o ácido gálico está amplamente presente na natureza e é encontrado em uma série de plantas, como folhas de chá, sendo considerado padrão para o estudo de polifenóis.
“O ácido gálico está envolvido em atividades de proteção e regulação em plantas e apresenta ação biológica contra vários microrganismos”, afirmou Ferreira.