Cultivar plantas de cobertura com incentivo? Onde? Por Ciro Antonio Rosolem*


É impossível se conseguir semeadura direta de qualidade sem palha. O Brasil é o País com a segunda maior área em semeadura direta, no mundo. Iniciativa de quem? De muitos agricultores, preocupados com a conservação de seu bem maior, a terra. Enquanto a agricultura produtiva, econômica é demonizada por muitos grupos auto-declarados ecológicos, ela vem fazendo sua parte com relação à conservação de nossos recursos. Investindo, praticamente sem apoio oficial. Pode-se alegar que existe o Programa de Baixo Carbono do Governo Federal. Existe? Como está funcionando?
Muito bem, vamos sonhar um pouco. No Estado de Iowa, nos Estados Unidos foi lançado um programa: Unilever/ADM Sustainable Soy Continous Improvment Program, com apoio governamental. Basicamente, o programa visa estabelecer condições para que a Archer Daniels Midland Company (ADM) possa suprir a Unilever com soja produzida de modo sustentável. Cada agricultor que usar plantas de cobertura pela primeira vez terá uma ajuda de custo de US$ 60.00 por hectare para adquirir sementes. Além disso, há desconto na aquisição de sementes de uma determinada companhia, mais assistência técnica. Para quem já usa plantas de cobertura, o incentivo é de US$ 36.00. Os participantes do programa podem ainda participar de treinamentos e dias de campo. Quem assume o custo da participação na compra de sementes é o Departamento de Agricultura do Estado de Iowa. Lógico que o programa limita a área beneficiada e o custo é dividido apenas na primeira compra de sementes. Entretanto, é fornecido um aplicativo que permite ao agricultor calcular os ganhos advindos da aderência ao programa. Como dá lucro, ele acaba ficando e passa a cultivar plantas de cobertura regularmente.
Entre os principais problemas na conversão da agricultura tradicional, no Brasil, para uma agricultura mais conservacionista, com rotação de culturas e uso de plantas de cobertura para proteger o solo e ciclar nutrientes, está justamente no investimento necessário na aquisição de sementes e na falta de conhecimento técnico para implantação. Não muito diferente do Estado de Iowa.
No Brasil temos agricultores que se preocupam em fazer uma agricultura melhor, temos Unilever e temos ADM, além de muitas outras companhias que se dizem preocupadas com sustentabilidade. Temos produtores de sementes de plantas de cobertura. Temos um governo que pensa e age, de fato, investindo para melhorar a sustentabilidade? Fica a sugestão: passar das palavras para a ação.

*Por Ciro Antonio Rosolem, Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu).