A demonização do agronegócio - Engº Agrº Eduardo Pires Castanho Filho


Agronegócio é uma relação de produção referente à cadeia produtiva agropecuária e florestal e não grandes empresas desses setores.O artigo começa dizendo que o Cerrado já foi destruído em 40% e acabará em mais 20 anos. Longe de ser sinônimo de destruição esse uso do cerrado tem gerado alimento, emprego, renda, divisas e desenvolvimento para o Brasil. Ora, a Lei vigente permite que esse bioma seja explorado em 65 a 80%! A “culpa” no caso é do Congresso Nacional que aprovou a lei e não do “agronegócio”, como quer o artigo. Esses percentuais estipulados na lei são bons ou ruins? Só uma análise das condições locais poderá dizer. O cerrado como manancial de grandes bacias hidrográficas ainda está longe de ganhar a importância estratégica que tem, e por isso, merece uma atenção especial quanto aos seus usos, sob a ótica de serviços ecossistêmicos.
A seguir o artigo entra na questão da produtividade da pecuária bovina brasileira, comparando- a com o agricultor europeu, afirmando que nos mesmos “metros quadrados” este “produz alimentos nobres e caros”, sem dizer nem quais são, nem o volume de subsídios que recebem para produzi-los.
Uma pecuária de baixa produtividade é por assim dizer um desperdício de recursos naturais e ambientais, mas seu desenvolvimento está condicionado à implementação de políticas públicas de utilização racional do solo.
Seguindo adiante diz que o Brasil produz e exporta comida (soja) para engordar porcos na China. É óbvio que deveria engordá-los aqui e exportar a carne do porco, se possível já preparada. Quando aborda uma pretensa inviabilidade do agronegócio brasileiro, a conta que está suposta entre “danos ambientais irreversíveis, subsídios e rolagem de dívidas” feitas pelos grandes empresários do é impossível de ser analisada, sem que os dados utilizados sejam conhecidos. Daí a se concluir que esse “modelo” é insustentável, além de calcado numa cultura de desperdiço, e que jamais será capaz de contribuir para abastecer o mundo dos alimentos necessários ao crescimento da população global, vai uma grande distância.
A agropecuária representa no Brasil cerca de 8 a 10% do PIB, que com o multiplicador do agronegócio, conservadoramente igual a quatro, leva a produção setorial a representar de 35 a 40% do PIB brasileiro. No comércio exterior, que tanto parece preocupar o articulista, as cadeias produtivas brasileiras exportam perto de 100 bilhões de dólares (30% de soja; 7% de boi) e importam 17 bi, incluído o feijão, gerando um saldo de 83 bi. Claro que é um contrassenso vender matéria prima para ração animal a preços irrisórios e carne oriunda de pecuária de baixa produtividade. Mas, se exportarmos carne bovina com alto valor agregado, permitindo a importação de feijão e melhorando a balança comercial, não será uma troca assim tão desvantajosa.
Ao referir- se a aproveitamento alimentar fica-se com a impressão que não se conseguiu definir um índice. Poderia ser conversão alimentar, onde os bovinos apresentam uma média de 12:1, com um porém: eles transformam uma comida que o homem não ingere- o capim, em alimento de alto valor alimentar. A conversão caloria para quilo é em média de 20:1 em condições de pastoreio, ou 5%, e talvez seja esse o valor utilizado no artigo, quando fala em 3%. Esses valores dos índices zootécnicos precisam ser melhorados, por suposto, embora dependam de políticas específicas para tanto (manejo alimentar, melhoramento genético, pastoreio racional).
Quando aborda a questão da água o desastre articular se completa. Há uma ignorância total e absoluta sobre o ciclo hidrológico, ou seja, da água e seus fluxos: a água que cai com as chuvas, a que infiltra, a que penetra no solo, a que as plantas e o solo evaporam após utilizá-las, e aquela que mantém as reservas subterrâneas e as relações entre continentes e oceanos. Esse ciclo descreve, portanto, o movimento da água na atmosfera, biosfera (terra, plantas e animais) e litosfera (solo, subsolo e rochas) como gás, líquido ou sólido. Esse processo é totalmente influenciado pela energia do sol e pela gravidade, além dos grandes movimentos climáticos regidos pelos oceanos.
Quem lê o artigo, sem prestar muita atenção, acaba “vendo” a água sendo consumida pela agropecuária e “desaparecendo” nas “regas” da soja ou na sede inigualável dos bovinos. A soja não é “regada”, a água da chuva “passa” pela planta, onde ficam 18% retidos nos grãos na hora da colheita e que são exportados, e entram no ciclo novamente. Ou seja, da chuva media anual (12 a 13 milhões de litros por hectare) cerca de 640 litros ficam embutidos na produção anual de soja, ou 0,00005%! O mesmo se passa com o gado. A pecuária bovina em São Paulo, a mais evoluída do País, é a atividade que mais produz água para a população paulista. Ouve-se muito que para se produzir carne bovina se gasta muita água. É verdade. Para produzir um quilo de carne, se consome cerca de 7 mil litros de água, que, entretanto, é continuamente reciclada. Se não fosse assim, ele teria no abate cerca de 28 toneladas! Mas, como nas terras paulistas se produz, em média, 120 quilos de carne bovina (com 70% de água, retêm 84 litros) por hectare por ano, a pecuária acaba sendo a atividade de menor consumo de água da agropecuária paulista. Porque a produtividade é pequena, não porque a carne use intrinsecamente pouca água.
As críticas que por ventura possam e devam ser feitas às atividades agrossilvopastoris e ao demonizado agronegócio devem ser lastreadas num mínimo de conhecimento técnico para não criar animosidades setoriais sem a menor necessidade.