Armadilhas do clima Por Coriolano Xavier*


Água de mais ali, impactos sobre a produção ou logística do campo, e barbas de molho com o abastecimento urbano de água ameaçado.
No calor da seca e dos debates, voltou à tona a questão recorrente do papel da floresta amazônica no clima brasileiro: segundo pesquisas, além de contribuir para as chuvas torrenciais de nuvens baixas, a região também exporta umidade para todo o continente através dos chamados “rios voadores”.
Na verdade, esses “rios” são gigantescas massas de nuvens carregadas, formadas por ventos úmidos vindos do oceano e atraídos pela baixa pressão atmosférica da região (principalmente no verão) e que se deslocam para fora da Amazônia, em direção ao Centro-Sul e Sudeste.
Os pesquisadores também alertam para um contraponto preocupante: a Amazônia de fato distribui umidade para outras regiões brasileiras, mas a depredação da floresta gera impactos negativos sobre essa sua funcionalidade, com reflexos potenciais sobre o regime de chuvas e a temperatura média.
Hoje, 19% da floresta amazônica estão desmatados e 28% degradados, configurando praticamente metade da floresta como um ambiente fora de seu perfil original de vegetação. São quase três milhões de km² modificados e isso deve irradiar consequências sobre a orquestração climática regional e brasileira.
Obviamente, esse não é o único – e nem o mais importante – fator de desestabilizações climáticas. A obstinada queima de combustíveis fósseis, e sua gigantesca descarga de CO2 na atmosfera, é o vilão número 1 das mudanças do clima, assim eleito por unanimidade global.
Ambientes com aumento de temperatura são mais suscetíveis a eventos climáticos extremos – como secas e enchentes, trazendo riscos para nossos padrões de produtividade e de custo de produção, pois severidade ambiental pode significar aumento ou rearranjo da tecnologia aplicada no campo.
Diante dessa questão, que a meu ver é estratégica para o agronegócio, pois pode impactar sua competitividade e lucratividade, como se posicionam as lideranças do setor? Afinal, o agronegócio é fiel da balança para a saúde econômica brasileira e, em boa medida, fiador do nosso futuro.
Talvez seja o momento para o agronegócio abrir um debate abrangente entre produtores, academia e entidades setoriais, para discutir como evitar ou minimizar armadilhas do clima. Talvez seja hora, enfim, de assumir a liderança dessa pauta na sociedade, inclusive mobilizando outros setores da economia cujo passivo ambiental é bem mais crítico.
Conhecimento e tecnologia para isso, aparentemente, já se tem. Talvez falte a dose certa de consciência e compromisso, em diferentes elos da cadeia produtiva do agronegócio. Direta ou indiretamente, a questão climática pode afetar a economia de todos, portanto é um problema de todos, também. Basta olhar com um pouco mais de atenção, vontade e reflexão.
* Vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Professor do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM.